As crianças da mulher


Tinha uma mulher que trabalhava de empregada numa casa. Cuidava dum menino e duma menina desde os dois pequenos. De criança ela domava os dois com história, depois de crescidos já tavam amansados e não careciam mais de fábula, só o olho bastava.

Assim foi. Se o menino ficava muito na barra da saia de vontade de bolinho de chuva, a mulher dizia que nem dava porque não tinha chovido e o bolinho carecia daquela água acabada de cair. O menino até protestava mas era questão divina: se não caía água do céu ele tinha de ter com Deus, São Pedro, o santo que fosse menos com ela. Azar da mulher era quando todo aquele povo celeste tinha vontade de chover, aí mesmo o menino não estando em concordância de vontade de bolinho de chuva, dava a pedir pra mulher fazer o quitute. Ia saber quando é que ia chover de novo? Coisa que cai do céu não se desperdiça.

A menina era danada de doida de café, tinha de ver! Se ela entrava de pé manso na cozinha a mulher já ficava atenta. Pois era a menina puxar o olho pra garrafa térmica, a mulher dava a contar que se a menina tomasse ia ficar preta que nem ela. De pronto a menina arregalava um olho grande e assustada saía. Volta e meia, nas escondidas, a menina ia e golava meia xicrinha num tapa. Matava a vontade e se fosse de ser verdade a história da mulher, ia só ganhar um moreninho.

Tinha também de o menino se juntar mais a menina pra estripulia. Em vez que pegavam a por a mão no vão do sofá, a mulher contava da cidade de aranhas que tinha dentro, no meio do enchimento. O rebuliço acabava ali. Que nem quando os dois iam pra perto da escada: aranha sobe. Os dois voltavam pra dentro da casa. Nessa toada ela foi crescendo os dois. Cada quase traquinagem ela contava uma história e quem fosse que tivesse ouvindo parava.

Pois não foi que um dia, chegando em casa pro almoço o menino não viu aquela bruta mulher chorando? Foi. Tremia. De tanto soluço gaguejava que nem dava pra saber a causa. Passada pra uma meia hora, o menino já com comida na barriga, a mulher tava recuperada da fala e tentou contar. Deu metade. No tanque foi que ela tinha pegado qualquer coisa que fez chorar e lavar o braço inteiro de álcool, tirar a coisa ruim. Contando pro menino ela se batia, lembrava, tremia e voltava a chorar. Aí não saía mais nada.

A menina foi que deu pra traduzir a situação toda pra ele. Pois a mulher não tinha era pegado um rato no meio das roupas, lavando? O bicho entrou de madrugada no tanque cheio de roupa suja, água e sabão, não deu conta nem de sair, nem de nadar. Morreu afogado no desespero, tadinho. A mulher que nem tinha visto nada acabou pegando o bicho e tomando aquele susto. Nunca o menino tinha visto a mulher chorar nem nada, só braveza ou carinho. Agora tava lá desconsolada de ter pegado o rato que nem vivo era pra fazer mal. Engraçado, né não?

Pois não me monte mais banquinho pra subir ver o tanque outra vez que você pode acabar ou pegando rato, ou afogado que nem ele. Tá me ouvindo bem?

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

4 comentários em “As crianças da mulher”

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