(Des)confiando

Em São Paulo todo mundo é noiado?


Paulistano é muito neurótico, não é, não? Eu tava na Paulista às 23h30, indo pro ponto da Consolação pegar o busão e um cara na minha frente seguia adiante andando e encarando as pessoas. Cara fechada, expressão desconfiada.

Por causa da hora já não havia muita gente pelas calçadas. Uma meia dúzia de pessoas indo, outras vindo e alguns mendigos vagando sabe-se lá pra onde. Sabe ressaca de fim de semana? Quando todo mundo já está se preparando para a segunda-feira massante? Pois é, desse jeito.

Comecei a divagar sobre agressões na Paulista, homofobia… essas coisas mundo cão. Acabei, não sei como, indo parar no dia que meu celular foi roubado no ônibus – também domingo, também perto da meia-noite – e me peguei traçando planos sobre lugares bons de se sentar em segurança. Nisso o cara não me vira e fica me encarando?

— Escuta, você anda sempre por aqui?
— Não costumo andar sempre nesta hora mas direto eu passo aqui sim.
— E não é perigoso? Tô vendo uns noias ali na frente… É que eu fui assaltado recentemente e agora tô assim.

Foi assim que eu conheci o Junior, massoterapeuta (que ironia) que mora em Pinheiros. Um armário de 3 × 4 que se caga de medo de atravessar a rua, bicho! E nós dois noiados com as adversidades cosmopolitas, os dois com caramiolas na cabeça numa das avenidas mais policiadas e vigiadas do país. É São Paulo que deixa as pessoas assim ou essas pessoas é que vêm morar aqui?

— Boa noite! Você vai ali no ponto, né? Eu vou naquele outro ali, do outro lado da rua.
— Boa noite pra você também. Tomara que você não seja assaltado até chegar no ponto – brinquei para descontrair.
— É, a gente tem que ser assim, né? Pensar positivamente… Boa noite e obrigado.

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

Uma consideração sobre “(Des)confiando”

  1. o medo é uma coisa interessante, até quanto acomete as pessoa? O medo é uma atração à bandidagem? Talvez… quando estou em SP ando pela Paulista e outras praças a qualquer hora, tenho uma certa des (confiança) porém, encho o peito, cabeça erquida, tento aparentar super mulher corajosa, assim caminho pelas ruas de São Paulo e também do Rio de Janeiro, até hoje dei sorte, e vamos que vamos!

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