Do alvo à escuridão, as raízes da sociedade sob questionamento

Crítica sobre a peça “Morro como um país”, da Kiwi Cia de Teatro


Inicialmente publicando no Vereda Estreita

Trecho da peça Morro como um país, da Kiwi Cia de Teatro. Foto: Olegário A. Filho.

As escadas levam a um sótão todo ele branco com algumas janelas retangulares nas paredes laterais. Um grande ambiente vazio com as vigas de madeira e forro à vista, tudo é branco. Mas a cor não significa paz, “nós não estamos em paz” e os que passaram por lá souberam muito bem. Ali, naquele sótão, os opostos se mesclarão incessantemente durante uma hora e meia. Ali, aquele sótão e a atriz se tornarão seus pares de outros tempos e dos tempos de hoje: a Escuela de Suboficiales de Mecánica de la Armada (ESMA), o Edificio Libertad, o DOPS, a Casa da Morte, Heleny Guariba, Alexandre Vannucchi, Marighella, os filhos de maio, as vítimas dos ninjas

“Volver a la ESMA”. Foto feita em 1984, quando um de seus raros sobreviventes retorna à ESMA (uma escola da marinha argentina e campos de concentração e extermínio). Buenos Aires, Argentina. Reprodução da foto de Enrique Shore.

Cenário da peça “Morro como um país”, da Kiwi Cia de Teatro. Teatro Grande Otelo, São Paulo. Foto: Olegário A. Filho.

Baseado na alegoria de contrastes (ou duplos), o espetáculo “Morro Como Um País”, da Kiwi Cia de Teatro, expõe de modo dialético as relações entre os estados de exceção vividos sobretudo na América Latina (mas também em países europeus) na década de 70 e estes que vivemos hoje, sob a pretensa égide da liberdade democrática. As cenas são sequências de relatos e performances que podem ser vistas tanto atomizadas, como se fossem intervenções, quanto em seu conjunto, o que provoca dois movimentos no público: no início o estranhamento e depois a assimilação da mensagem política. Estes movimentos percorrem todas as cenas e vão se tornando mais potentes à medida em que a encenação se desenrola – e o espectador vai ganhando cada vez mais subsídios para comparações.

Cena da peça “Morro como um país”, da Kiwi Cia de Teatro. Teatro Grande Otelo, São Paulo. Foto: Olegário A. Filho.

Potentes também são as metáforas. A mágica faz o papel com as inscrições “UNE 1964” e “FAVELAS 2012” desaparecer quase imediatamente quando é ateado fogo nele. Uma lembrança, um aviso. Como num passe de mágica, com o golpe de 64 a UNE foi tendo seus dirigentes presos, torturados e mortos. Também como num passe de mágica, hoje as favelas são sistematicamente incendiadas.

Já o tempo, qual o relógio de barbeiro lá no fundo do palco, gira ao contrário e é cíclico. É ao mesmo tempo o diagnóstico, consequência e símbolo do que Schwarz nomeia como modernização conservadora (1), de uma sociedade que avança tecnologicamente sem que necessariamente também avance politico e filosoficamente. Dá-se um passo adiante, recua-se dois.

Cena da peça “Morro como um país”, da Kiwi Cia de Teatro. Teatro Grande Otelo, São Paulo. Foto: Olegário A. Filho.

As metáforas e referências descritas acima – e todas as outras presentes na peça –, contudo, não se prendem a uma ou outra interpretação. Elas são dadas ao público de forma que cada um, pelos subsídios culturais que tem, as ressignifique ou, ainda, crie múltiplos significados. Deste ponto de vista, a peça não está lá para ensinar para o público. Pelo contrário, busca induzir o espectador ao questionamento para construir um conhecimento com o público. E dessa grande dúvida que surge na cabeça de cada um, inúmeras relações e correlações entre passado e presente se formam.

Indo mais além, como diria Hegel (2), a relação entre forma e conteúdo se dá pela constante conversão de uma em outra. Na peça, essa conversão é a catalisadora da mensagem política. Não por acaso, aqueles que militam e que militaram são postos em cena em carne e osso, próximos ao público, calorosos e com muito a dizer. Do outro lado, militares, para-militares e clero são bonecos articulados, meros fantoches manipuláveis que ecoam palavras frias.

Cabe aos fantoches – e não às personagens de carne e osso – encenar os diálogos do livro “porta-voz do bang-bang e da Polícia Central”, como diria Roberto Silva, pelo qual escorre o sangue. Eles falam sobre democracia e sobre a barbaridade necessária de se matar usando “as mesmas armas”.

À frente do palco, o cubículo de 1,5 metro por 2 metros, uma cela, se converte num pequeno retângulo vermelho no chão branco. O prisioneiro se faz ouvir: “Vi o sol oito horas. Oito horas em 11 anos preso”. A grande cadeira de ferro torna quem senta pequeno e, manipulada por Fernanda Azevedo, remete ora à Cadeira do dragão, ora às grades das celas.

Cena da peça “Morro como um país”, da Kiwi Cia de Teatro. Teatro Grande Otelo, São Paulo. Foto: Olegário A. Filho.

Outro duplo da peça reside na questão do engajamento político versus alienação – e aí talvez o maior exemplo seja a Carmem Miranda/prisioneiro. Enquanto se aborda didaticamente o manual da CIA com técnicas de desmoralização do prisioneiro através do seu uniforme, a cantora, com seus balangandãs, se eriça toda cantando “Disseram Que Eu Voltei Americanizada“. Enquanto ela se americaniza, as calças largas do prisioneiro caem. Enquanto ela se sexualiza pela redução das roupas, ele se humilha abaixando para pegar as calças. O distanciamento do público, provocado tanto pelas personagens do prisioneiro quanto da cantora e potencializado pelo conteúdo político do texto, remete fortemente a Brech

Nesta mesma cena atinge-se ao menos três níveis de crítica. Primeiro, no discurso militar e do regime ditatorial explicitado pelo agente da CIA, revelando não apenas a influência estrangeira naquele momento da história, mas sobretudo traçando paralelos com o que hoje é utilizado sistematicamente como técnica nos presídios. Na figura do preso político, alegoria do militante ou da própria esquerda, o texto ganha materialidade, pois, assim como no caso da cela, as palavras são fortes mas não dão a dimensão do absurdo que a ação desempenhada consegue dar. Por fim, a cantora, também alegoria da indústria cultural e de sua alienação, explicita o discurso da apolítica como fundamento da dominação de uns por outros.

Cena da peça “Morro como um país”, da Kiwi Cia de Teatro. Teatro Grande Otelo, São Paulo. Foto: Olegário A. Filho.

A peça acerta, também, ao borrar fronteiras tidas por muitos como sólidas em suas diferenças. Assim se dá com o policial que se veste de ninja para assassinar, com as relações Igreja-Estado e Estado-Copa, mas sobretudo com a relação verdade-mentira.

Cena da peça “Morro como um país”, da Kiwi Cia de Teatro. Teatro Grande Otelo, São Paulo. Foto: Olegário A. Filho.

Separadas fisicamente no cenário, num canto reside a verdade e no outro a mentira. Através de um jogo de palavras e de lógica promovido pela dramaturgia da peça – referência ao modo de operar dos totalitarismos – verdade e mentira se mesclam, depois se confundem, então se contradizem e, por fim, deixam o espectador sem a menor noção do que seja uma ou outra.

Confira a galeria de fotos completa no Flickr

Alguns espetáculos se destacam por suas técnicas, outros por suas execuções, outros mais por suas estéticas. Morro Como Um País se destaca pela sua pertinência, porque é necessária. Ela questiona, ou melhor, nos faz questionar aspectos fundamentais da sociedade atual como relações de poder ao invés de, como é comum acontecer, aceitar estes aspectos como normais ou naturais. Assim, a peça revolve o passado explicitando o quão ele ainda é presente e a grande possibilidade de que continue sendo futuro

Notas
(1) A questão da modernidade conservadora permeia toda a obra de Schwarz, mas uma boa mostra de como funciona esse mecanismo na arte (em especial na literatura) brasileira se dá no livro “Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis”.
(2) Iná Camargo Costa cita um trecho de SZONDI, Peter. Teoria do drama moderno [1880-1950]. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.

Referências
COSTA, Iná Camargo. A hora do teatro épico no Brasil. São Paulo: Graal, 1996.
MERLINO, Tatiana. “Em cada batalhão da PM tem um grupo de extermínio”. Caros Amigos, São Paulo, set. 2012. Disponível aqui (acesso em 19 abr. 2013).
ROSENFELD, Anatol. “Teoria dos gêneros”. In: O teatro épico. 4ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2000. pp 13-56.
SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. 3ª ed. São Paulo: Duas Cidades, 1998

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

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