Os olhos, a luz fraca

Nada disseram mas se compreenderam


Sabe esses dias chateados com a vida, em que se anda cabisbaixo e pensativo? Dia desses foi assim com Luciana. Havia pouco a noite tinha enfim se instalado e a passos tímidos e com fones atolados nos ouvidos ela cruzava um parque. A música? Tanto faz, a música era para não ouvir o mundo e prestar mais atenção no diálogo intenso travado consigo mesma em sua cabeça.

De tão compenetrada que estava, só percebeu Tássio a poucos metros de se cruzarem. Também pudera, o jovem havia escolhido o único banco de uma área escura do caminho, numa falha da iluminação pública. Queria se isolar em algum lugar livre, a brisa da noite e o céu estrelado o acalmavam.

Andando, Luciana viu o chão virar banco, o banco virar um pé e o pé virar um moço encolhido. Seus eus mentais se calaram imediatamente, constrangidos pela presença do estranho; ela diminuiu o passo. Já ele, que até então chorava aos soluços, levantou a cabeça de supetão, tão surpreso quanto elas. Forçou-se a engolir o choro, limpou um pouco as lágrimas, mas encarou Luciana. Não por desafio e sim por saber que, uma vez tendo sido pego em sua fragilidade, era inútil tentar manter alguma pose.

À medida em que ia se aproximando do desconhecido, Luciana se pôs a especular sobre a causa do choro do moço. Ele teria terminado o namoro? Fora despedido? Brigou com alguém? Perdeu alguém querido? Enquanto especulava também andava, e quanto mais perto chegava de Tássio, mais seus traços iam se revelando na luz fraca. Seus olhos, vermelhos pelo choro, eram lindos e não encaravam nada, pediam ajuda ou, no mínimo, compreensão.

Luciana teve, num lapso, o impulso de ir conversar com o moço, dar um abraço e dizer que tudo ficaria bem, que ele não se importasse. Mas olhando-o por mais um pouco deu-se conta de que ela também precisava de ajuda, não estava em condições de acalentar, mas de ser acalentada. Resignou-se. Fitou-o mais uma vez, com ternura e tentando dar algum conforto (que a ela lhe faltava), contraiu os lábios como que dizendo “poxa vida, acontece… mas eu te entendo, também tô na merda” e baixou os olhos no momento em que iam se cruzar.

Por um instante Luciana quase pode ver, de canto de olho, um sorriso tímido e enternecido surgir no rosto de Tássio. Foi o melhor agradecimento que recebeu em anos.

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

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