Euforia alienante

Ontem, pudemos nos manifestar. O aumento das tarifas, no entanto, ainda vigora. E ainda assim estamos contentes: por quê?


Que os protestos de ontem foram um marco da história recente do país, disso não há dúvida. Com certeza revertemos, ao menos por hora, o sentimento coletivo de que éramos rebeldes sem causa (ou de causas hipócritas). Sem dúvida, em São Paulo foi um ato maravilhoso e é absolutamente normal que festejemos como festejamos durante seu acontecimento (ainda que haja alguma ironia: em tempos democráticos, ficamos felizes por termos permissão de nos manifestar). Mas a rigor não conseguimos nada e esse clima de euforia pode ser um tiro no pé do movimento.

Não, nós não fizemos uma manifestação desse vulto unicamente porque “o povo acordou”, nós fomos permitidos a nos manifestar. E obtivemos essa permissão não porque de uma hora para outra as autoridades se tocaram de que nossas reivindicações são legítimas (os políticos ainda são taxativos: não vão revogar o aumento das tarifas), mas porque a truculência policial foi tamanha que atingiu repórteres e idosos. Mexeu com a imprensa, amigo.

A lógica é simples: não houve truculência ontem porque não houve polícia. O número imenso de manifestantes pouco influiu. O caráter da manifestação, que se dividiu em vários blocos com destinos independentes, permitia facilmente repressão a um ou outro bloco em pontos estratégicos da passeata. Tanto permitia que, ao longo da manifestação, não foram poucos os boatos de que a Tropa de Choque estava num ou noutro ponto.

Andamos (muito) por São Paulo e muitas vezes sem saber o rumo. Isso desgasta; após algumas horas de caminhada ficamos exaustos. Por maior que seja o ânimo dos manifestantes, os músculos dos corpos dão as caras, não resistem a caminhadas tão longas. No próximo ato os manifestantes de primeira viagem vão pensar duas vezes antes de ir.

É aí que entra o paradoxo. Dado o caráter pacífico e a euforia do momento, aliados à exaustão de uma longa caminhada, é provável que as próximas manifestações não tenham o mesmo número de pessoas que a de ontem, um recorde. O problema está quando as pessoas que foram hoje começarem a pensar no “já fiz a minha parte de cidadão”. É aí que o movimento pode naufragar (e é isso o que as autoridades esperam).

Pudemos nos manifestar mas este é um direito nosso, garantido. A revogação do aumento das tarifas de transporte público nós ainda não conseguimos.

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

3 comentários em “Euforia alienante”

  1. Certeiro.

    Falta agora aparecer o #NãoConseguimosAinda

    E alimentá-lo com os próximos passos, uma ideia aos twiteiros.

    As próximas poderiam ser somente ocupação, também achei exaustivo repetir caminhada diariamente, mas ocupação à moda farsi.

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  2. É isso aí. “Quando a esmola é demais o santo desconfia”, já dizia minha avó. Há muito contra o que protestar: a qualidade da saúde e da educação, os políticos, etc. Haverá “permissão” para tanto protesto?

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  3. Bom. Infelizmente (e me explico porque por mim as manifestações deveriam ser eternas), sinto que em algum momento isso tudo esfriará. E se sim, revogam o preço das passagens? Ótimo, reivindicação ganha! Porém todas as outras pautas perderão a força. PEC37, Copa do Mundo, Fora Alckimin, Passe Livre… e se ainda, na pior das hipóteses, os R$0,20 continuem de pé? Quantas outras segundas, terças, quartas-feiras mais teremos com milhares de manifestantes, até que a gente se canse de ir à luta, por simples e pura reação indiferente do governo? Sinto calafrio ao pensar, que o gigante possa adormecer novamente…

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