O PL natimorto e o estabelecimento midiático da bancada evangélica

A bancada evangélica lança bombas de fumaça de olho nas próximas eleições presidenciais


Esta semana foi marcada pela aprovação do Projeto de Lei 478/07, o chamado “Estatuto do Nascituro” na Comissão de Finanças e Tributação. A jogada do projeto para criminalizar todo e qualquer tipo de aborto é definir o conceito de nascituro:

“Parágrafo único. O conceito de nascituro inclui os seres humanos concebido “in vitro”, os produzidos através de clonagem ou por outro meio cientifica e eticamente aceito”

Desta forma, contorna-se a dor de cabeça da discussão central sobre o que é aborto ou não, onde a bancada evangélica encontra mais resistência, para se fazer uso de todo o Código Penal existente e criminalizar não só o aborto como também as pesquisas científicas e a discussão sobre o tema – a apologia ao aborto também seria incluída como crime.

A contrapartida do projeto é ainda mais absurda: o pagamento de uma pensão de um salário mínimo ao bebê fruto de estupro. O benefício seria pago pelo Estado, caso o pai não seja identificado, ou pelo próprio autor do estupro – com o bônus do direito ao filho ser registrado em seu nome.

Mesmo que se feche os olhos às bizarrices e inconstitucionalidades, o PL 478 precisa passar por mais uma comissão, pela Câmara, pelo Senado e pela assinatura de Dilma Rouseff para se tornar lei. É um projeto natimorto. A bancada evangélica sabe muito bem disso e reside aí o perigo.

Explico. Desde a ascensão de Jair Bolsonaro aos holofotes da mídia e com o vácuo político deixado pela direita em função do sucesso das políticas sociais implementadas pelo PT ao assumir o poder, a bancada evangélica identificou aí uma oportunidade de ascensão e vem fazendo uso sistemático da mídia para se projetar.

Desde os anos 90 eles investem pesado no aluguel de espaços de canais de televisão e na própria compra de concessões de rádio e TV. Mas isso em si não basta, o público desses meios é o mesmo público que eles já têm. É como catequizar padres.

A bancada evangélica, agora, quer se mostrar perante a população e se estabelecer de maneira forte e bem definida. E fazem isso quando o Russomano vira protagonista da campanha à prefeitura de São Paulo; quando Silas Malafaia – que não é político mas atua na difusão da mensagem – vai no programa de Marília Gabriela ou é perfilado pela revista Piauí; quando Marco Feliciano assume a Comissão de Direitos Humanos e Minorias e fica cerca de dois meses sendo noticiado diariamente por todos os veículos de comunicação; e agora, por fim, o PL 478 é aprovado pela Comissão de Finanças e Tributação. Cá entre nós: eles têm tido sucesso.

Cada vez que uma ação dessas acontece, mais apoio popular a bancada evangélica consegue e mais consegue fixar nomes na cabeça da população – faça uma pesquisa perguntando quem é Aécio Neves e quem é Marco Feliciano. O objetivo está claro: conquistar o maior número possível de cadeiras na Câmara e no Senado nas próximas eleições. A bancada evangélica não é boba, sabe que são nestes locais onde as decisões que influem na vida do país são tomadas.

Enquanto os grandes partidos se digladiam para decidir quais serão os candidatos presidenciais, a bancada evangélica se articula para ser um novo PMDB. A diferença é que o PMDB é mutualista e a bancada evangélica é parasita.

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

4 comentários em “O PL natimorto e o estabelecimento midiático da bancada evangélica”

  1. Boa explicação nobre PF,,,,
    continuarei lendo seus textos muito interessantes aqui no Parazão véio de guerra….aliás,,se conseguisse escrever sobre como está Altamira-PA onde estou vivendo atualmente, seria um texto bem recheado viu!!!!….A coisa é maluca aqui,,,lembra lugares como Bombaim na India….Belo Monte brother,,,,,,isso aqui é coisa de maluco e pura realidade brasileira….se precisar de informaçòes, fotos,,,,caso for escrever algo, só me solicitar!
    Continue com o blog, está muito bacana mesmo, parabéns!
    Abraço do primo,
    A. De Fávari.

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  2. Grande PF, bom texto…..mas tenho algumas pequenas ressalvas…..
    Como pode um estado dito laico ter uma bancada para interesses explicitamente evangélicos? Simples,,,por conta de ser a “religião” ou meio enganatório e manipulador, que mais cresce no Brasil nas últimas décadas!
    E o PMDB ser mutualista acho que tem um pequeno erro de conceito:
    mutualismo seria uma relação ecológica obrigatória onde há benefícios para ambas as espécies……..
    Eu colocaria como uma coisa mais próxima do comensalismo, onde um se aproveita da relação em quanto o outro nada sofre, positiva ou negativamente ou dependendo da visão um amensalismo (aí sugiro uma breve pesquisa sobre este conceito….
    Agora que os evanvélicos são parasitas,,,,,(brigando apenas pelas suas visões e valores distorcidos na nosssa atual sociedade, concordo em grau e gênero!!!
    Só pra finalizar…..eu aguardo ansiosamente um BOLSA SOLTEIRO PÓS 35 ANOS, rs,,,estào criando bolsa pra tudo, nào é? quem sabe não rola essa tetinha também!!!!
    Abraço primo,,,belo blog e vou tomar um cafezinho em tua homenagem!!!!
    A. De Fávari.

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    1. Bom, Lê, esta é a consequência do modelo de governo que nós temos: o parlamentarismo de coalizão. Como há a possibilidade, os grupos de interesses se juntam em torno de uma bandeira e fazem pressão. Existe a bancada evangélica mas também existe a bancada ruralista, a bancada dos estados produtores de petróleo e por aí vai. É legítimo que esses grupos se unam e tentem democraticamente atingir seus objetivos. A democracia é feita de constantes quedas de braço.
      Quanto à questão do Estado laico, não é só nas últimas décadas, não. A primeira coisa que fizeram quando descobriram o Brasil foi fincar uma cruz na praia e rezar uma missa. É muito difícil encontrar, hoje em dia, uma repartição pública que não tenha um crucifixo incrustado na parede. As notas de dinheiro têm a expressão “Deus seja louvado”. Aí faço coro contigo: que Estado laico é esse? É só no papel! Mas vai tentar mudar isso para você ver… Já tentaram.
      Em relação ao conceito, não me equivoquei, não. Retomando o conceito de presidencialismo de coalizão, como não seria possível, ao PT hoje e ao PSDB antes, ter maioria governista nas bancadas da Câmara e do Senado apenas com seu partido, é necessário que se faça coligações para poder governar caso contrário todos os outros partidos vão fazer oposição àquele que venceu. Como o PMDB é muito grande e tem muitas relações de poder, atua como colchão para os partidos que vencem as eleições. É um toma lá, dá cá: o PMDB oferece seu apoio político para o partido que é governo poder governar e o partido que é governo faz as concessões que o PMDB quer.

      Outro abraço e bom café!
      P. Fávari

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