Anedota dos Gimenez

A saga das Bodas de Ouro dos progenitores da família


Bodas de ouro, todos dizem, são inesquecíveis, afinal de contas não é todo dia que se vê um casal comemorar 50 anos de casamento. Ontem meus avós comemoraram as deles. Casamento firme, bonito. Mas não foi por isso que (ao menos para mim) esta data não se apagará da memória.

Missa de comemoração. Os Gimenez ocupam as primeiras três fileiras de um dos oito quadrantes de bancos da igreja, que está com uns 40% da lotação. Todos estão bem comportados, vestidos de modo impecável, cabelos feitos, enfim, essas coisas cerimoniais de cidades do interior. Eu já sucumbo à entrada.

O padre, um senhorzinho rechonchudo sem a mínima habilidade musical, entra todo feliz cantando e batendo palmas. O resto da igreja (média etária de 60 anos, calculo) acompanha o sacerdote cada qual a seu tempo. Dona Ana da quitanda: 30 batidas por minuto. Seu Antônio da prefeitura: 80 bpm. As irmãs Serafina e Sueli disputam: 60 bpm e 65 bpm, respectivamente. Diante de meus olhos se descortina uma enorme bandeira negra: “NÃO RIRÁS”.

Após a saudação, o ato penitencial e o glória, todos cantados e devidamente percussionados pelos fieis, assumo a tática do pecador arrependido: sento no banco com as mãos na cabeça, os cotovelos nos joelhos e procuro fixar meus olhos em algum ponto. É isso ou perder a compostura ali, na ponta direita da segunda fileira, diante de todos os presentes.

Acontece que não sou lá muito sortudo em minhas escolhas. O ponto para onde olho para segurar o riso é justamente os pés de meu avô. A sola de seu sapato esquerdo, comprados para a ocasião, está presa apenas pelo calcanhar. Respiro fundo mas o riso, com o canto do salmo, a esta altura é mais forte.

“Não vou pagar o pato sozinho”, penso, e cutuco minha irmã. Péssima ideia, ela é daquelas pessoas que soluça quando ri muito e ri muito quando não pode.

A missa se encaminha para a segunda leitura e nós já chamamos a atenção de minha tia, sentada ao lado esquerdo de minha irmã. Ela vê os sapatos de meu avô, seu pai, se lembra de que o casal é quem fará a procissão do ofertório e desata a rir. Riso contido, óbvio, mas por isso mesmo quase incontrolável – eu há muito já evito olhar para a esquerda, sob pena de gargalhar.

Para evitar o desastre, minha tia pede a sua irmã e seu cunhado para substituírem meus avós no ofertório, mas para isso tem de contar o motivo. O problema é que esta minha outra tia é tão escandalosa quanto minha irmã mas com o diferencial de que não consegue se controlar. Resultado: gargalhadas sufocadas nas duas fileiras de bancos atrás de meus avós.

Enquanto o padre fala, as táticas para segurar o riso são as mais variadas possíveis. Eu olho para a direita. Minha irmã morde os lábios. Minha tia intercala a respiração profunda com a respiração cachorrinho. Minha outra tia sufoca a gargalhada com a mão na boca. E minha avó, que antes padecia de um sono daqueles e agora está ciente do problema, vira para trás para rir o quanto pode de tempos em tempos. Ninguém ousa olhar na cara do outro.

Minha tia, a primeira, resolve contornar a situação e volta para casa para pegar outro par de sapatos antes que chegue o momento da bênção aos meus avós. Chega a tempo. Mas meu avô, numa discrição inversamente proporcional ao seu corpanzil de 1,90 metro de altura, sentado na primeira fileira quase chuta os pares de sapatos ao trocá-los em plena missa. Agora, quem não se aguentam são o coroinha e o padre. Enquanto preparam a comunhão contêm magistralmente o riso, mas os dois pares de olhos arregalados os boicotam.

Ao vestir os novos sapatos meu avô se lembra de um detalhe: ele só comprou o outro par porque este que ele veste agora tinha descolado a sola – isso, é claro, só soubemos depois. Por sorte (muita mesmo) o par velho deu conta do recado e os ditos cujos aguentaram à cerimônia de renovação do compromisso.

O resto das pessoas que assistiam à missa ficaram todas emocionadas quando os Gimenez (14 no total) subiram no altar. Quase dava para ler os pensamentos dos fieis: “Que família bonita e sorridente!”.

Foto: Paulo Fávari

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

3 comentários em “Anedota dos Gimenez”

  1. Li mais uma vez e ri muito, outra vez! Muito engraçada a maneira como descreveu o descompasso das palmas ao acompanhar as músicas. Muito boa a sua crônica.

    Curtir

  2. Vá ser chato assim lá meio da torcida do Boca Jrs! O Paulo Fávari é o repórter cric-cri, relatando criticamente os fatos jocosos dos Apóstolos na Última Santa Ceia!!!! Tem habilidade de transformar uma simples missa num acontecimento inesquecível… Quem sabe, sabe…

    Curtir

  3. Nando, eu ri muito, só ao ler o seu relato, imagine se estivesse presente, puta merda, ia ser difícil controlar, mas nessas ocasiões é que coisas surreais acontecem.. parabéns aos seua avós, bodas de ouro é uma conquista, até sagrada, não é para qualquer casal.

    Curtir

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s