“Difícil é o diretor te dar um texto e você conviver com aquilo que nunca viveu”

Entrevista publicada no jornal Latino-Americano, da VIII Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo


Inicialmente publicado no Jornal Latino-Americano, da VIII Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo

Jornal Latino-Americano | 5ª edição, 20 de abril de 2013 (Clique na imagem e baixe o PDF)
Jornal Latino-Americano | 5ª edição, 20 de abril de 2013 (Clique na imagem e baixe o PDF)

Quando, há quinze anos, Luzinete Barbosa entrou para o projeto Nós no Morro, que fica no Vidigal, Rio de Janeiro, mal sabia que ali seria o local onde se curaria da depressão e reforçaria os laços com seus filhos. Já Francisca Damião da Silva, a Chiquinha, só conseguiu “depois de velha” terminar seus estudos e conseguir enfim alcançar seu sonho de fazer teatro – entrou para o projeto há sete anos. As duas fazem parte da equipe de 30 pessoas responsáveis pelo espetáculo Bandeira de Retalhos, que encena a história da primeira remoção de barracos, ocorrida em Vidigal em 1977.

Fávari – Vocês conhecem pessoas que foram removidas neste momento?
Luzinete – Eu não peguei a remoção. Sou de Campina Grande, na Paraíba, e estou no Rio há 36 anos. Mas eu peguei a segunda remoção do Vidigal, conheço várias pessoas e convivi com elas. É uma história bem forte, é real; aconteceu e acontece até hoje. Eu moro em uma área que é de frente para o mar, o 314. É uma área que o que eles mais desejam é tirar para fazer hotel porque é muito próxima ao mar. Eu cheguei a pegar a segunda remoção. É bem difícil você ver pessoas sendo removidas dos barracos, de suas casas, sem ter para onde ir e aquela resistência.
Francisca – Eu não peguei nada disso porque faz 11 anos que eu estou no Rio de Janeiro. Peguei o negócio do tráfico com a polícia, as guerras, mas esse negócio de derrubar barraco eu não peguei, não estava lá ainda.

Fávari – Agora estão chegando a Copa, as Olimpíadas. Vocês acham que pode ter um terceiro movimento de remoção no Vidigal?
Luzinete – Eu acredito que vão ter melhorias. Não uma remoção, para deixar as pessoas desabrigadas, para jogar as pessoas no lixo. Eu sou atriz mas hoje eu sou microempreendedora. Antes eu trabalhava numa área do Vidigal que pertence à prefeitura onde eu tinha uma barraquinha, na entrada do Vidigal, que foi removida há pouco tempo. Tinha um projeto de construírem um shopping e nos tiraram de lá. Isso foi mês passado, uma coisa que foi construída há quase dois anos, e fomos removidos. Eu acho que hoje já tem soluções, entendeu? Já não é bem essa resistência, essa remoção.
Francisca – Eu concordo com ela. Várias pessoas perguntam sobre esse negócio, o que vai acontecer depois da Copa e depois que terminar esse negócio de futebol. O comandante da polícia fala que não vai ter esse negócio de tráfico porque vai ser uma coisa diferente. Vamos ver, né?!

Fávari – E como é para vocês atuar?
Francisca – Primeiro pegamos o texto, vamos lendo, vamos entendendo como é que vai ser. Aí vamos fazer os exercícios e vamos descobrindo como vai ser aquele movimento da peça.
Luzinete – Para mim, atuar não é muito difícil, difícil é o diretor te dar um texto e você conviver com aquilo que nunca viveu. Isso para mim é meio pesado. Atuar, para mim, não é difícil porque eu trabalho com o público, gosto de falar muito, sou muito comunicativa, me meto em tudo, sou meio que fofoqueira, sou meio que mãezona, um pouco de cada coisa. É meu jeito.
Agora, na Bandeira foi bem complicado. Apesar de eu ser nordestina, eu nunca passei necessidade porque mamãe era lavadeira de roupa e papai era guarda noturno. Eu não sei dizer o que é pobreza porque eu nunca vivi ao relento, sem um teto – isso tudo a gente vive no Bandeira. Para mim foi, é e continua sendo difícil porque cada dia que a gente apresenta Bandeira de Retalhos é um aprendizado. Você aprende, você cresce, você amadurece. Ganha crítica, esporro do diretor e da diretora, mas sabendo que amanhã você pode fazer bem melhor.
Nessa peça não tem “O” protagonista, “O” ator. Todos nós somos atores e protagonistas. São mais ações do que falas. São mais olhares, mais ações, mais dinâmicas. A Chiquinha é costureira mas ela é tão importante quanto o outro ator. Ninguém sai do palco, é como se fosse favela mesmo, cotidiano mesmo.

Fávari – Qual a expectativa de vocês para a apresentação?
Luzinete – Vendo essas apresentações, essas atividades, essas peças que eu tenho visto desde terça-feira, eu já estou buscando a emoção do Bandeira desde agora. Estou crescendo e aprendendo com a emoção destes espetáculos. Eu já fico pensando na concentração, em pegar algo para buscar essa emoção mais ainda do que eu já tinha. Não que tenha que ser a melhor, não é uma competição, mas para ser uma coisa natural, que cause impacto, que seja muito mais verdadeiro.

Fávari – Como está sendo esta experiência de participar da Mostra?
Francisca – Está sendo uma experiência muito boa, a gente está aprendendo! Eu gosto de ver essa expressão diferente para a gente aprender e levar para o trabalho que a gente faz dentro do teatro. Eu acho muito bom quando uma pessoa faz um movimento com o corpo todo. Caraca, eu fico toda doendo. Eu sou de idade (tenho 63 anos), não posso fazer muito movimento senão me descolo toda [risos]. A minha vontade é isso aí, cara! Se eu tivesse entrado mais nova, garanto que eu estava que nem eles, assim molenga! Mas depois da idade foi que eu terminei meus estudos e agora estou no teatro. Tudo é possível, é só a pessoa querer e ter a boa vontade de fazer.
Luzinete – Esta experiência é muito especial, mas cada experiência é muito valorizada, grandiosa. Mas essa com Bandeira de Retalhos… nossa, é o nosso cotidiano, o nosso dia a dia. Você vê pobreza, miséria, racismo, preconceito… é a nossa realidade. É algo para nós pararmos, meditarmos e fazer um Brasil melhor. Está na hora de mudar, de fazer algo. Senão, onde vamos parar?

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

Uma consideração sobre ““Difícil é o diretor te dar um texto e você conviver com aquilo que nunca viveu””

  1. Entrevista como essa é difícil de imaginar, até nos dias de hoje, a maioria da população pensa que no morro as pessoas só vivem da bandidagem. Só que mudou muito, essa reintegração, essa valorização, a política de levar cultura e lazer nos morros está funcionando, não é só o que a grande mídia mostra. É preciosa a participação do grupo numa Mostra Internacional e mais importante ainda um trabalho, uma entrevista como o seu, valorizando o trabalho dessas mulheres.

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