Que mané abominais!

Por uma alimentação menos saudável


Não sou das pessoas com silhueta mais redondinhas do mundo — e este é um senhor eufemismo. Por isso, posso me dar ao luxo de devorar sem culpa nem moderação as comidas que são sonhos (com o trocadilho, por favor) da grande maioria da humanidade.

No entanto, cada visita às gôndolas de um supermercado é, pra mim também, um sufoco. Você (no caso eu) vai lá, todo afobado e certeiro em direção ao iogurte. Se não examina a embalagem com minúcia, corre o risco de levar um light — quando não cai na besteira de saborear um lacto purga (aliás, queria saber quem foi a amável pessoa que teve a ideia de transformar iogurte em laxante). Mas encontro algo não-light: 90 gramas e quase dois reais, uma espécie de neo-Yakult — se me pedirem um gole, eu surto.

Sigo feliz em meu passeio masoquisto-consumista rumo aos refrigerantes e sucos. Lá, o que não é light está quente ou é chá. Não que chás ou sucos não sejam gostosos, mas eu quero estrias e celulites. Quero o gosto do “hmmmmmm”, não o do “nem parece que é light!”. Saudável por saudável, prefiro o suco da fruta natural.

Próximo alvo: bolachas e salgadinhos. Deve haver, neste supermercado, algum oásis do contra-saudável. Encontro. Mas os pacotes estão infinitamente mais magros em relação à minha infância. O regime tirou uns bons 40 gramas da minha bolacha recheada, que eu comia em menos de um minuto e ficava satisfeito — agora só forra o estômago (que continua igualmente pequeno). Os salgadinhos, outros 40 gramas de isopor com sal e gordura a menos. As bolachas ficaram mais fininhas, já os salgadinhos, para manter a forma, puseram ar mesmo. E tudo mais caro do que antes; meu bolso se retorce.

Que existam pessoas interessadas em controlar a probabilidade de bater com as botas mais cedo, va lá. Também cuido de minha saúde, por mais que não pareça. Mas eu só queria ter mais gordura, sal e açúcar no meu ainda econômico corpo sem ter de gastá-los procurando mais gordura, sal e açúcar, poxa. Ranzinzices à parte, me rendo ao que me oferecem, os compro e volto a minha casa.

Ligo a televisão (já que vou me esbaldar em coleteróis, por que não atrofiar o cérebro também, não é mesmo?) e abro minhas guloseimas. Prestes a devorá-las num segundo, pois não são muitas, entra o comercial da máquina de abdominais.

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

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