O vestir-se da pele do outro para assumir suas características

Crítica sobre a peça Recusa, da Cia. Teatro Balagan.


“Ao distanciar-se de si mesmo, [o ator] celebra o ritual da identificação com a imagem do outro, isto é, do seu tornar-se ser humano”
Anatol Rosenfeld em O Fenômeno Teatral

“Makunaima não foi pra cidade grande, não derrotou gigante e não virou herói, isso é coisa de escritor”
Recusa

De tempos em tempos, as fórmulas e técnicas teatrais sofrem alterações. Elas podem reinventar o modo como se pensava o teatro até então ou aperfeiçoar partes de uma forma vigente. Assim foi com o surgimento do drama, advindo da necessidade da sociedade burguesa emergente em se valorizar o indivíduo, num momento histórico-teatral em que o que havia era a tragédia, a comédia, o drama histórico e as variantes possíveis – todos não cobriam a demanda. Assim também foi com Stanislavski, que introduziu a experiência do ator como estrato-base para a construção da personagem; com Brecht, que derrubou a quarta parede criada pelo anterior para que a plateia se desse conta de que a peça é uma ficção, previnindo-a da alienação; também foi assim com Boal e seu Teatro do Oprimido, que expande o teatro para além do espetáculo em ações sociais.

Por vezes, também, o teatro se depara com situações dilemáticas. Durante o Naturalismo, por exemplo, surgiu a questão: como retratar a animalização do homem apenas com recursos dramáticos? O espetáculo Recusa, da Cia. Teatro Balagan, traz uma dessas situações.

A peça tem como mote a notícia, veiculada em 2008, de que dois índios Piripikura, etnia tida como extinta há 20 anos, haviam aparecido em Mato Grosso e a União, então, tentava demarcar sua área. A história, no entanto, remonta às origens das tribos ameríndias até chegar aos dias em que os últimos remanescentes Piripikura são encontrados.

Para tanto, a companhia desenvolveu, desde fevereiro de 2011, um estudo com a tribo rondoniense Suruí Paiter, com o objetivo de pesquisar a narração, a construção verbal, entre outros, dos índios e aplicá-las ao teatro. É aí que surge uma dessas situações: como adequar a linguagem teatral a uma cultura em que não há essa linguagem?

O grupo parece dar a resposta nas primeiras cenas: a recusa da linguagem teatral. Pud e Pudleré, os dois índios criadores de seres, interagem pelo palco falando suas línguas maternas. Por um bom tempo eles conversam, caçam, riem, cantam. Só então o teatro como conhecemos começa a inserir um de seus poucos elementos na encenação. Pudleré se transforma em narrador e conta, qual um indígena, a história da criação do mundo ao mesmo tempo que o outro ator (ainda Pud) realiza as ações ditadas.

É preciso que atores e plateia recusem o teatro e internalizem a cultura ameríndia para só então chegarem à síntese que transmita a filosofia ameríndia da melhor forma possível. Como diria Anatol Rosenfeld, é preciso se distanciar do humano para se tornar um. Como diria Pudleré, mais esperto, é preciso vestir-se da pele do outro para adquirir suas características.

Entendida a proposta, o estranhamento da fala aos poucos se dilui, a barreira cultural se quebra e, assim, público e atores passam a ser tribo. Não se estranha, por exemplo, a ausência de linearidade e ligação entre um mito e outro, característica indígena que no teatro convencional seria tida como defeito. Ao contrário, toda a potência dos mitos narrados toma conta do teatro e, como Hartmann previu, a pessoa, indentificando-se no outro, se torna capaz de expansão.

Neste ponto, a crítica social contida na temática se revela de forma magistral. O público se dá conta de que o fazendeiro não mata pra se vestir do outro, mas para não fazer nada com o outro; se dá conta de que ele derruba a mata para por um bicho que não faz nada além de mascar. Mais, o público se torna cúmplice do processo de aniquilamento cultural do índio, seja pelas igrejas, seja pela sua “homembranquização”. Some-se a isso a triste coincidência do eminente suicídio em massa de 170 indígenas remanescentes dos Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, e se compreenderá de forma única a importância da questão indígena no Brasil.

*****

Esta é a primeira versão da crítica, que fiz para uma disciplina da faculdade. Como creio que se eu deixar para publicar a corrigida talvez nunca o farei, publiquei esta mesmo. Ela tem algumas falhas por causa da minha inexperiência mas ainda assim acho legal publicá-la aqui. Espero que gostem.

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

2 comentários em “O vestir-se da pele do outro para assumir suas características”

  1. parabéns pelos seus comentários sobre Recusa, embora, a sua humildade de estudante, aliás um bom estudante, não o torna piégas, sua análise é muito esclarecedor. Revi a peça no Sesc Rio Preto, recomendo a leitura a todos que assistiram ou perderam.

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