Arte ressignificando arte

A obra de Aleijadinho vista por Coppola e exposta em museu


A obra de Aleijadinho vista por Coppola e exposta em museu

Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, é o maior expoente brasileiro da arte barroca, definida pelos excessos (em expressividade, assimetria, irregularidade) para ressaltar a ideia de conflito, de um mundo em extremos; e rococó, em que predominam os tons pastéis e dourados, o decorativismo e a representação alegórica.

As esculturas do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, feitas entre 1975 e 1805, são da fase mais madura de Aleijadinho, em que o artista já era influenciado pelo Rococó – e em que a extração do ouro em Minas Gerais estava em declínio. Ainda que a temática seja fortemente religiosa, as esculturas d’Os Doze Profetas e da Via Sacra têm traços expressivos e dramáticos, característicos do Barroco, mas com alegorismo típico do Rococó.

Influenciado pelo Modernismo e pela busca por uma identidade latino-americana, vigentes nas décadas de 1930 e 1940 na América Latina, o fotógrafo argentino Horácio Coppola elaborou um ensaio fotográfico das obras de Aleijadinho (citadas acima), efetuado em 1945. No ensaio, atualmente em exibição no Instituto Moreira Salles sob curadoria de Luciano Miglicaccio (Luz, Cedro e Pedra), as estátuas são retratadas sob diferentes enquadramentos e iluminações, ditados pela subjetividade, estudo e conhecimento densos de Coppola.

O fotógrafo transgride em vários níveis a fotografia praticada na época. Ao invés de buscar o momento decisivo, adiantado em cerca de 40 anos, Coppola constrói cada fotograma a partir de vastos estudos. Além disso, cerca de 20 anos antes dos demais, o fotógrafo hibridiza a fotografia e a torna também arte – ou melhor, meta-arte – pictorializando a fotografia ao mesmo tempo em que a utiliza para documentar e retratar (no sentido de se fazer um retrato).

Assim, unindo enquadramento e iluminação, ainda que diferentes fotogramas retratem uma mesma estátua física, cada fotograma em si ressignifica a obra de Aleijadinho. Em Cristo da Captura, por exemplo, ao se retratá-lo em plano aberto e em companhia de duas outras estátuas, Jesus aparece sorrindo. A mesma estátua em close e sozinha confere ao mesmo Jesus um aspecto sério.

Indo além, nos três fotogramas do Profeta Joel, a estátua é representada com fisionomias piedosa (close do lado direito do rosto), séria (perfil do lado esquerdo do rosto) e sorridente (perfil do lado direito do rosto).

Em Pastor ajoelhado o que marca é o enquadramento. Quando retratado de corpo inteiro, sua silhueta é ressaltada, o que fica particularmente evidente na forma do nariz, pontudo. No entanto, quando se altera o enquadramento para um close de mãos e rosto, as formas se suavizam e, consequentemente, o nariz fica menos pronunciado.

Já em esculturas que aparecem, na exposição, em fotografias únicas, pode-se observar o profundo conhecimento de Coppola sobre a obra de Aleijadinho. Em Verônica a luz direcional da esquerda para a direita ressalta sua expressão de tristeza; em Menino com cravo a iluminação no motivo lhe confere leveza; a luz dura em Profeta Jonas reforça sua expressão.

De modo geral, os closes valorizam os motivos e dão maior peso às expressões das figuras, humanizando-as; planos abertos contextualizam as obras no teatro das cenas mas retiram a força dramática, ressaltando o aspecto de estátuas. Nos fotogramas nos quais a luz é dura os traços são mais evidentes, o que torna as expressões mais carregadas e graves na fisionomia e mais realistas; já naqueles nos quais a luz é difusa, os traços são mais suavizados, trazendo sensações de calma e leveza.

Outro dado significativo. A época (anos 2010) e o lugar (museu) onde o ensaio é apresentado também conferem à obra outras significações.

Atualmente a fotografia tem lançado mão de todos os recursos estéticos utilizados até aqui e as fronteiras entre os gêneros estão, ao que parece, irremediavelmente borradas. O espectador dos anos 2010 não estranha o fato de que as fotografias de Coppola não são exclusivamente retratos, documentais, paisagens ou alegorias, mas têm aspectos de todos estes – e outros mais. A classificação não tem papel central para este espectador porque ele mesmo está habituado ao hibridismo corrente.

No entanto, o lugar ainda confere legitimidade à obra. Uma obra pode ser obra de arte ainda que não esteja em um museu, mas a partir do momento em que está nele, então com certeza é uma obra de arte.

Desse modo, é interessante observar a trajetória da obra de Aleijadinho em três momentos. Em sua feitura (virada do século XIX), suas estátuas já são consideradas obras de arte. Quando são retratadas (década de 1940), ainda que persista a categoria de obras de arte nas estátuas, a fotografia é tida como um suporte menor. Já quando expostas (década de 2010), a fotografia já é aceita como obra de arte; com isso, o ensaio de Coppola é duplamente tido como obra de arte e triplamente legitimado com tal. Duplamente porque a fotografia já pode ser categorizada assim e porque o que o ensaio retrata é uma obra de arte. Triplamente porque está num museu, é uma fotografia que se destaca perante outras fotografias e, mais uma vez, porque retrata uma obra de arte.

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

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