“Não tem troco para R$ 5,00?”

A história do homem discriminado e da plateia impassiva.


Cheguei ao ponto hoje com meus fones incrustados no ouvido mas pensando na vida. Esperando o ônibus, chega um homem de aspecto maltrapilho. Ele retira dos bolos um pacote amassado de cigarros e uma caixa de fósforos. Tenta uma, duas, três vezes acender mas não consegue. De repente ele se dá conta de que eu estou no ponto, olhando para ele, e vem conversar comigo.

No início não consigo entender absolutamente nada do que diz, ele está bêbado e tem forte sotaque nordestino. Mas aos poucos as palavras vão ganhando forma e sons. O homem está bravo por ter sido tratado como vagabundo. Faz questão de me mostrar que não é: retira o dinheiro que ganhou trabalhando do seu bolso (calculo uns R$ 80,00) e os calos nas mãos. Me mostra também um ferimento no lado esquerdo da barriga.

Meu ônibus chega e o homem decide entrar também. Ele desiste de acender o cigarro, que guarda no bolso, e segue para a catraca. Do chumaço de notas que ele tem nas mãos, retira uma de R$ 5,00 para pagar o ônibus que custa R$ 3,00.

O cobrador se recusa a aceitar o dinheiro, diz, irônico, que não tem troco e o orienta a ir falar com o motorista. O homem vai falar com o motorista que, também irônico, o ridiculariza. Não querendo sair do ônibus e sem poder passar pela catraca, o homem se revolta. Ele passa a dizer, aos berros, que não é vagabundo, que isso é discriminação por ele ser nordestino e estar bêbado; escancara a realidade que todos insistem em não ver ou acreditar que não existe. O cobrador mantém o riso irônico no rosto (é um bêbado!), as pessoas no ônibus fingem que nada acontece.

Até o ponto em que desci o homem ficou apenas um breve momento quieto. Era visível sua indignação sincera com essa cidade de pessoas tão apáticas.

Eu me pergunto até agora porque não fiz nada. Escrevo este texto, cheio de culpa, para expurgar o fantasma de ter sido egoísta, por não ter ido ajudar o homem. E me sinto um completo panaca. Não tenho um pingo da coragem daquele homem, que não se cala nem fica impassível com a injustiça.

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

3 comentários em ““Não tem troco para R$ 5,00?””

  1. Importar-se é o primeiro passo. Apesar de não ser fácil incomodar-se por causa do outro, de um outro “qualquer”, de um “invisível”, é possível pensar em tentar ser solidário porque muitas serão as outras vezes que coisas assim vão acontecer. Quando nem se pensa na atitude que teve e deveria ter tido, aí sim é que não tem jeito.

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