Problema de estética pública


Desde terça-feira (3) a Polícia Militar paulistana vem escurraçando os usuários de drogas da Cracolândia, que fica na região central de São Paulo. A lógica é simples, livrar o centro dos moradores de rua e dos usuários de drogas. Dessa forma, dizem, o consumo de crack se enfraquecerá. Ô argumentaçãozinha fajuta!

Na real, é repressão pela estética. É como alguém que faz lipoaspiração mas precisa mesmo é de tratamento contra a hipertensão. É o Estado tentando ficar mais bonito.

Em novembro, a prefeita em exercício Alda Marco Antônio deu entrevista para a Folha falando da política da prefeitura a esse respeito: mandar o usuário de crack para sua cidade de origem.

A cidade de São Paulo tem uma estrutura muito melhor para o tratamento dessas pessoas – muitas das cidades de origem deles têm no máximo um hospital público, não resolve – e eles mandam de volta? É uma política de higienização. Joga-se o problema para o outro para o meu problema ficar menor, ou mais bonito. Além disso, o usuário de crack que voltar para a sua cidade de origem pode levar o crack para lá e, dessa forma, “exportar” o vício.

Outro ponto: as últimas ações da Polícia aconteceram no centro de São Paulo. Curiosamente, esse mesmo centro de São Paulo está em processo de “revitalização” por uma série de fatores (Copa, inclusive). A quem interessa uma ação dessas, com efeitos imediatos? À Saúde Pública ou aos donos de imóveis da região?

Grande parte destes usuários de crack, agora, vão procurar outros lugares em São Paulo mesmo. Cada vez mais irão para pontos mais longe do centro, mas a maioria, estou convicto, não sairá da cidade. E aí vão para onde? Eu ouvi um “para as favelas” aí? Pois é… E qual a consequência disso? Bom, nas favelas o Estado não chega e aí, meu irmão, pode esquecer assistência social, pode esquecer reabilitação, pode esquecer. Isso sem contar que muitas favelas paulistanas ainda não têm crack – os traficantes sabem o mal que o crack faz.

E não me venham com o argumento de que “quem quiser vai procurar tratamento”. Sério mesmo que vocês acreditam nisso? Um usuário de crack, que está em processo de abstinência por ter sido alvo dessa política nazistizante, vai mesmo pensar nisso?

E aí, não seria melhor oferecer um ambiente propício ao tratamento ao invés de escurraçar?

Tenho pensado nos últimos dias e meses em como estamos acostumados acostumados às lógicas militarista e shoppinizante, influências dos conteúdos que forma nossos mentes. Por que usuário de droga é necessariamente bandido? Por que mulher que aborta é necessariamente assassina? Por que índio é necessariamente invasor? Não é todo mundo gente?

E qual é a reação das pessoas? “Parabéns, São Paulo, por livrar o centro dessa imundice (lógica shoppinizante)! E tem de mandar bala (lógica milistarista)!”.

*****

Para ler: Tá com dó? Leva pra casa!, de Leonardo Sakamoto.

Para ver:

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

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