Ponto de vista de um aluno da FEA


Texto inicialmente publicado no Facebook de Cleber Pelizzon

Você não me quer como aluno da USP

Um grande amigo pediu minha opinião sobre os acontecimentos recentes na USP. Agora longe de São Paulo, quis saber como alguém da USP e além disso, da FEA, vê toda essa situação. Realmente de longe fica difícil entender. Temos de passar por uma cortina de fumaça criada pelos mais diversos meios de comunicação, é bem verdade.

No entanto, não posso me colocar em uma posição de esclarecimento dos fatos, por si só. Já existem relatos suficientes para isso, de alunos que estavam nas assembléias ou no momento da invasão (http://www.facebook.com/notes/shayene-metri/desabafo-de-quem-tava-l%C3%A1-reintegra%C3%A7%C3%A3o-de-posse/233831886679892). Já existem também diversas análises interessantes sobre o que aconteceu (http://www.cartacapital.com.br/sociedade/ocupacao-patetica-reacao-tenebrosa/) (http://raquelrolnik.wordpress.com/2011/11/10/truculencia-para-todos-mais-sobre-a-usp/). Estou somente na posição de falar como um aluno da USP que ao mesmo tempo é da FEA, ou seja, um monstro formado por ambiguidades.

Sou aluno da FEA. Trabalho durante o dia, 10, 12, até 14 horas por dia. Estudo à noite. Ou melhor, vou às aulas quando posso. Como trabalhor, pago meus impostos. Como somente vou à USP para assistir às aulas e nunca depredei o chamado patrimônio público, sou um bom beneficiário dos cidadãos que com seus impostos pagam por minha educação. Não sou “vagabundo”, não fumo maconha no campus.

Mas você não me quer como aluno da USP. Fazendo o que eu faço atualmente, estou simplesmente colocando seu precioso dinheiro no bolso. Com o conhecimento que adquiro nas salas de aula, faço uso somente em meu benefício, pois consigo um emprego melhor, um bônus melhor no final do ano, mais lucro para meu empregador. Mas ainda assim muitos acham que me querem como aluno da USP.

Como alunos da USP, aqueles que participaram e participam das assembléias, aqueles que invadiram e invadem reitorias, estão, permitam-me, fazendo o que se espera de um aluno da USP. A Universidade é o lugar onde se questiona, onde se reflete sobre nossos problemas, onde se ensina e onde se aprende. A universidade é o lugar para indignar-se, para pensar em um mundo melhor. Utópico? É este o papel da universidade: proteger o pensamento crítico que vai mudar o mundo.

O que os vagabundos fizeram foi justamente trazer a atenção para diversos problemas que enfrentamos atualmente. Com a escolha unilateral do atual reitor, temos o fantasma da ingerência. Com as ações friamente calculadas do atual reitor, que desqualifica os protestos dos estudantes manipulando (ou seria compactuando?) a mídia, trazendo a atenção para a camiseta de marca, para a depredação (que, sabemos todos, não existiu), temos o fantasma da perseguição, da tentativa de tornar-mos todos dormentes. Com os gritos de “vagabundo” e “maconheiro”, mergulhamos no abismo do debate raso sobre as drogas em nossa sociedade. Com os gritos de “mimado” e “playboy”, nos perdemos na escuridão que é o debate da segurança pública.

Quem você quer como aluno da USP são justamente eles, e não eu. São aqueles que gozando de sua juventude, são revolucionários, sabem que seu papel é pensar em maneiras de mudarmos para melhor, e não aqueles que vêem a universidade como um instrumento de formação de técnicos, que mais tarde, como arquitetos, não se perguntarão quantas casas faltam em nossos países, como bem disse Allende. São aqueles que defendem uma universidade livre para pensar, mas também que defendem uma sociedade livre para pensar, que da mesma maneira que não querem uma polícia que persegue estudantes, não querem uma polícia que persegue membros de uma comunidade no morro.

Mas, e a invasão? Sou a favor. Apesar de ter ocorrido daquela maneira, após decisão de assembléia contra a invasão (pelo menos o que li foi que foi aprovada mais tarde, depois de uma redução drástica de quorum), aqueles alunos tiveram a coragem de se expor e expor a situação crítica que nossa universidade (e a sociedade) se encontra. A coragem daqueles alunos (que não são ingênuos como muitos disseram e sabiam que seriam presos e humilhados) permitiu que meu grande amigo, admirador de Allende e Mário Quintana, pudesse discutir a universidade, a polícia e a sociedade com colegas, familiares, estudantes e trabalhadores que de outra maneira estariam tão distantes da USP.

Não desejem estudantes dormentes. Desejem estudantes sonhadores.

Em tempo: os alunos da FEA, e da USP, querem segurança, o que não quer dizer que querem a Polícia Militar no campus. Os alunos possuem propostas claras e objetivas para a solução da segurança: mais iluminação (você sabia que é a política de segurança pública mais eficiente? bairros com lâmpadas amarelas são mais seguros que bairros com iluminação branca), abertura da universidade para circulação de pessoas, ou seja maior integração à cidade (o que significa que não nos vemos como um oásis no meio da cidade), policiamento por uma guarda universitária equipada e composta por mais mulheres (queremos sim, um policiamento independente e que possa prezar pela segurança das pessoas sem ser um instrumento de coerção, coação, repressão). Todas são medidas comprovadamente eficazes.

Cabe ainda apontar, que o assassinato de nosso colega da FEA não foi a causa da PM no campus. Como? Ora, a presença da polícia militar já estava ocorrendo de forma mais intensiva no campus antes do ocorrido. Não sepode dizer que o número de incidentes diminuiu com a PM (a USP possui estatísticas de ocorrências: http://bit.ly/sXlp0U). A PM no campus é, sim, consequência deste ocorrido pois foi usada para criar um embate entre bons e maus: maus são os estudantes, que querem fazer o que bem entendem no campus sem policiamento, bons são o reitor, o governador, que passaram por autoridades preocupadas com a segurança dos estudantes “a favor da PM”, dividindo o movimento estudantil, colocando a população contra os estudantes.

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

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