Extrema direita no IFCH (Unicamp)


Na esteira do post anterior, recebi aqui no blog um comentário relatando outro triste fato envolvendo extremistas de direita.

No dia 4 de outubro, a imprensa noticiou a existência de uma placa, na USP, que chamava o golpe de 64 de revolução. Mais: a placa ficava no canteiro de obras de um monumento em homenagem aos mortos que a ditadura militar produziu no Brasil. Polêmico.

Três dias depois, Diogo Bugnar de Aquino, calouro do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp enviou o seguinte email no grupo de emails do Instituto:

É alarmante ver um professor apoiar uma ação de vandalismo contra o patrimônio público. Por mais errada que estivesse a placa (e não estava) é inadmissível tanto o vandalismo quanto sua defesa por alguém que deveria ter um pouco mais de sensatez. Sobre os acontecimentos de 1964 por mais que o senso comum denomine-os de “golpe” só deveriam chamá-los assim aqueles que queriam comunizar o Brasil, destruir suas instituições nacionais, e entregá-lo à Moscou para que acontecesse aqui o que aconteceu lá: milhões de mortos em nome de um “mundo melhor”. Os que defendem a nação, as instituições e a democracia deveriam reconhecer o sacrifício que nossos militares fizeram ao empreender um movimento que visava desarticular os golpistas da esquerda, limpar do país essa gente e garantir a existência da nação como a conhecemos hoje. Na verdade poderíamos comemorar a data como uma contra-revolução. Foi preciso suspender direitos para que os mesmos fossem garantidos no futuro. Para que a esquerda voltasse ao poder teve que adotar valores da direita como a democracia e a defesa das liberdades individuais. A ditabranda não foi um momento nem de longe pacífico, mas os comunistas que morreram foram bem “morridos”. Enfim, a atitude daqueles estudantes da USP e do professor deixa claro o modo como a esquerda gosta de tratar qualquer assunto: na base da tratorização e da força sem qualquer tipo de diálogo.

E o professor Armando Boito Júnior respondeu:

Colegas,
não sei quem é esse indivíduo que assina Diogo Aquino e não dirigerei a palavra a esse fascista. Ele enalteceu, na lista oficial do IFCH, a repressão e o assassinato dos que lutaram pela democracia em nosso país. Vou solicitar uma reunião com a Direção do Instituto para examinar esse caso.

Não sei como alguém em sã consciência poderia ter feito um comentário tão sem cabimento como o que esse tal de Diogo Aquino fez. Não consigo acreditar que esse comentário tenha vindo de um estudante do IFCH! É vergonhoso.

Além disso, sua argumentação é absolutamente sem sentido. Entregar o Brasil a Moscou? Sacrifício dos nossos militares? Os comunistas que morreram foram bem “morridos”? Quem fez a lavagem cerebral nesse imbecil?

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

13 comentários em “Extrema direita no IFCH (Unicamp)”

  1. Compartilhamos do sentimento de estupefação que atingiu muitos ifchianas/os na última semana, a partir da mensagem de Diogo Aquino (que só descobrimos ser estudante do IFCH, aparentemente do primeiro ano de graduação, por conta dessa mensagem). Desabafamos em nossas listas de e-mails privadas, comentamos o caso, fomos alentadas/os ao nos sentirmos contempladas/os nas muitas reações à mensagem de Diogo, especialmente na pronta reação de Fernando Bizarro.

    Entretanto, hoje tomamos conhecimento da expulsão do estudante da lista de e-mails ‘ifch-alunos’, e do apoio do Centro Acadêmico de Ciências Humanas a essa expulsão. E decidimos vir a público expôr nosso lamento e nosso repúdio a essa expulsão e à postura do CACH.

    Enquanto estudantes do IFCH, preocupa-nos a postura de excluir de um campo de debate dessa instituição uma pessoa que demonstre ter opiniões escabrosas como essa. Não seria essa expulsão expressão da incapacidade do IFCH em formar pessoas com uma consciência histórica e crítica sobre o regime militar? Recusamos a reposta fácil de taxar Diogo Aquino como um ‘calouro que desconhece qualquer coisa da história do Brasil’ ou um ‘imutável conservador fascista’; em resposta a essas duas análises simplistas, acreditamos a) no esclarecimento que um Instituto historicamente de esquerda pode performar num estudante recém-chegado, e b) no embate de ideias que o campo da esquerda pode e deve travar (ao menos) para marcar posição diante de conservadores com argumentos falaciosos e absurdos. Contamos, nesse Instituto, com professores e funcionários que vivenciaram a época ditatorial brasileira; com estudantes e pesquisadores que expõem, de maneira crítica, responsável e cuidadosa, a violência, a opressão e o horror que marcaram esse período.

    O pensamento de esquerda é suficientemente sólido – inclusive no nosso Instituto – para mostrar a Diogo Aquino que a liberdade democrática, o respeito às diferenças e o diálogo (que ele lamentou não existirem nos eventos em torno da placa da USP) não se confundem com a libertinagem de manifestações autoritárias, desrespeitosas e opressoras (onde ele se situa); pelo contrário: são pilares de um posicionamento que, comprometido com uma sociedade um pouco menos desigual e injusta, só pode ser coerente se dentro do campo de esquerda.

    E é por isso que lamentamos a atitude de expulsá-lo da lista de e-mails. Cremos que o debate no campo das ideias, se atrelado a uma exposição crítica do que foi o período ditatorial brasileiro, tem a fortalecer o campo da esquerda porque consegue mostrar-se coerente. A expulsão de Diogo Aquino da lista ‘ifch-alunos’ mostra a dificuldade da esquerda em encarar o crescimento do pensamento conservador, inclusive em espaços de esclarecimento. Entretanto, a recusa ao embate de ideias é a pior estratégia: não se confronta o problema, cria-se mais distanciamento e, ao não reconhecer o conservadorismo e o autoritarismo (que existem no nosso dia-a-dia) como reais, a tentativa de exilar os contestadores do regime democrático a campos forçados de invisibilidade cede a esse tipo de pensamento espaços (imaginários e concretos) para que ele se dissemine sem maiores dificuldades. Por isso, chamamos professores e estudantes a dar visibilidade à polêmica, ampliar o debate e levá-lo às salas de aula.

    Stella Paterniani, Matheus Pasquali (estudantes do IFCH), Carolina Perini e Aline Hasegawa (ex-estudantes do IFCH)

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  2. “Elite intelectual”… “Vanguarda”. Lamentavel…
    É nessa postura que nos valemos de discursos de razão, para promover
    os mesmos tipos de autoritarismos que tanto criticamos. Somos intolerantes aos intolerantes, mas ainda assim… Intolerantes…

    É nessas posturas que cerceamos, e perseguimos… ainda conseguimos
    nos diferenciar dos grupos que tanto dizemos combater? =\
    até quando?

    É quase algo como os “fins justificam os meios”. Ou seja, podemos cercear o discurso dos fascistizantes, perseguir seus supostos arautos, silencia-los… Fazemos isso nos justificando no fato DELES fazerem isso… mas não fazemos a mesma coisa?
    Ou quer dizer, nosso nobre princípio revolucionário, torna nossa ação menos opressora?
    Mais pura ou aceitavel?

    A idéia de uma “elite”, que permeia as esquerdas hoje, que tem um esclarecimento político acerca da realidade, portanto, deve agir como “vanguarda” mobilizadora, uma “voz de razão” em meio a “barbarie capitalista” , é analoga à idéia que permeou as categorias militares – de uma “casta de elite” da sociedade, mais patriotica e disciplinada, ao contrário dos civis comuns… e essa idéia da superioridade dos militares, justificou em muito o Golpe de 64, o regime, e a sua prática sistemática de eliminação de seus opositores…

    Nesse sentido… é importante sim ,criticarmos a legitimação de tais pontos de vista.
    Coloca-los em cheque, inclusive, por nesse caso, apresentarem uma postura indefensável.

    Cercea-los, e persegui-los, é outra história – é nos tornamos mais aquilo que dizemos combater.. é acreditar que os “monstros” são sempre “os outros” e nunca estão em nós…

    Achar q o “IFCH”, ou faculdades de humanas em geral, agregam pessoas “mais conscientes” e horrorirzar-se com algumas posturas que eventualmente vêm a tona, e expressam um descordo com aquilo que se espera de um estudante de humanas… é crer num “iluminismo” político das humanas também lamentavel… =\
    O Ifch faz parte do mundo, suas posturas não são “melhores”, nem mais “sãs”, que em todo o resto, muito menos homogeneas do q achamos que seja, apresenta algumas peculiaridades, evidentemente, mas ainda assim, no mundo – ainda que o mundo de uma faculdade publica, num recanto isolado da cidade de CAmpinas… ¬¬

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  3. O problema não mora na questão ideológica, na questão do indivíduo ser extrema direita, extrema esquerda, conservador, libertário, etc. O problema está no posicionamento agressivo e idiota, defendendo fatos indefensáveis; o texto dele é uma verdadeira agressão. Sem contar nos inúmeros erros históricos e de falta de estudo por parte deste rapaz em questão…

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  4. OLá Paulo ,Li seu post ,pois uma amiga postou no face.
    Até agora estou tentando entender o que um mané desses faz no ifsch ?Acho que o professor está certissímo sobre a reuinão isso é vergonhoso.
    O que ele faz no Ifsch até parece discurso de quem faz Adm para herdar a empresa do Pai e nunca estudou História da vida e nunca esteve ligado aos movimentos de classe e vê qualquer ato que conteste o Capital ,a Ordem econômica e principalmente as distâncias sociais que ele gera como ato de “baderneiros ” e comonunistas .

    Esse Rapaz deveria ter nascido na Alemanha de Hittler ,pois este perdeu alguém que seria um excelente partidário.

    Apenas LAmento….

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  5. Bixo que defende a ditadura militar… Bixo que defende o neocolonialismo na África…Ando vendo e ouvindo tanta coisa nesse instituto ultimamente que só tenho a dizer que esse lugar já foi melhor.
    É bom sair da bolha, mas nem por isso é bom saber que tem gente no segundo semestre de Ciências Sociais que ainda pensa assim.

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  6. Não consigo compreender como uma calouro do IFCH pode ter uma mentalidade tão absurdamente mentecapta e assassina. Deve haver uma reunião para que nós possamos tomar cuidado com um indivído desse! Esse cara não está entendendo o que fizeram, é um nazista imcapacitado!

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  7. Sobre ser um extremista de direita ou de esquerda, essa não é a questão. Como bem disse o Prof. Fernando Teixeira do IFCH, o cara defendeu crimes de lesa-humanidade ocorridos em tempos de ditadura no Brasil. Essa posição está para além de uma posição “ideológica” que deve ser relativizada. O intolerante não pode ser tolerado. Me explico: não podemos fechar os olhos e dizer “ah, gente! não fiquem indignados porque a maioria das pessoas pensa assim”. O fato é que isso aconteceu dentro do IFCH, um centro de pensamento que se pretende vanguarda e representa a elite intelectual não só do nosso país, mas também em termos globais. Creio que se um posicionamento desse tipo está a habitar um dos maiores centros de produção intelectual do país, devemos levar em consideração que o IFCH já não está mais tão enclausurado em seu mundinho. O que é muito bom, como bem disse outro professor, Sérgio Silva. Falta esses caras aparecerem para um diálogo aberto, livre de apologia a crimes de lesa-humanidade, livre também de atitudes autoritárias (como sugeriu um professor que não terá seu nome citado por respeito) de banir o cidadão das listas de e-mails do IFCH.

    Por que não convidar o Sr. Aquino a apresentar um seminário sobre os feitos dos militares durante o regime ditatorial em nosso país, para um diálogo aberto de perguntas e críticas?

    Falta umas aulas de reforço pro menino, gente… temos que ajudá-lo <3 rsrs

    No mais, vc viaja demais, Flavinha! rsrs

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    1. O menino não vai aparecer pra debate nenhum, nem aberto nem fechado! O bullying ifchiano tá correndo solto! Até já descobriram as aulas/horários dele…! rs

      E assim, lendo seu comentário e sentindo um leve diálogo seu comigo, fui ler melhor o que havia escrito. Falei bobagens? falei… (sabe aquela coisa de pensei uma coisa, escrevi outra? não é justificativa, né: o que foi escrito, foi escrito e ponto).

      Fiquei estarrecida tbm quando li o texto que o indivíduo escreveu. E não, nunca achei que a indignação e a contestação de uma idéia tivessem que ser proporcionais ao número de pessoas que pensam X ou Y. É que eu acredito que essa polêmica é sobretudo um alerta: a clausura acadêmica faz de certos temas consensos tão dados, que de repente nos esquecemos que somos minoria. Até quando continuaremos a ter idéias brilhantes e revolucionárias e guardando pra nós mesmos?
      O que choca sim, é um elemento que fura esse consenso consensual de dentro, ignorando fatos históricos e se pautando pela pura ideologia (no sentido pejorativo do termo). Porra, estudamos humanidades, será que precisamos perder tempo discutindo os crimes de lesa-humanidade que a ditadura cometeu? Talvez sim… mas não de nós pra nós mesmos.

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      1. Bullying rolando solto no IFCH! hahaha.. gostei dessa!
        De fato, desde 2006, pelo menos, há bullying no IFCH – falo por mim, por isso falo desde 2006. Bulluying não só contra quem é da “direita” mesmo contra aqueles que não concordam 100% com uma posição política ou aqueles que tem críticas ao partido X, Y, Z… Ser crítico é motivo de bullying, calculem.

        No mais, acho que não expressei bem meu ponto de vista no último post. Mesmo porque falei em “vanguarda” e “elite intelectual” com um sentido completamente oposto ao que usaram para me responder…

        Aproveito, então, para divulgar aqui também uma carta sobre o ocorrido, que elaborei com mais três amigas, e que tem como ponto principal questionar a nota emitida pelo CACH e as ações persecutórias e punitivas em relação ao estudante Diogo Aquino.

        ps: sobre o “você viaja demais Flavinha”, foi uma livre apropriação do que está escrito no seu blog… não foi pra dizer que suas ideias tenham sido muito viajadas… rs

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      1. A escola das Américas; escola de (de)formação de oficiais militares dos exércitos latino-americanos, criada pelo governo norte-americano, durante toda a segunda metade do século XX.
        Foi o principal foco de difusão da tentativa de levar o anti-comunismo a algo próximo a uma ideologia. Por acaso eu também já ouvi muita coisa parecida dos muleques que iam jogar na lan em que eu trabalhei.

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  8. Bom, primeiramente, não acredito que esse menino seja um extremista de direita; acho que é exagero classificá-los nesses termos.
    Uma resposta interessante enviada por um ex-aluno ou professor (não me lembro agora) nesse mesmo grupo de e-mails, é que a academia fica alarmada com tal pensamento porque está enclausurada em si mesma – se abrisse os “olhos”, veria que não é incomum que se pense assim no Brasil. E continua: as divergências de opinião precisam ser respeitadas, mas ignorar FATOS históricos é lamentável.
    Se esse menino tivesse refletido um pouco mais e com mais criticismo, se tivesse estudado um pouco mais, não teria se posicionado “tão” nesses termos… Por mais que eu não acredite na neutralidade da ciência, ela nos dá sim ferramentas pra pensar o objeto o mais independentemente possível da ideologia. Seguimos uma metodologia de análise da realidade social que nos ajuda a não cair no senso comum, por que senão não seria “ciência”, por que senão não haveriam CIENTISTAS sociais.
    (E, ao contrário do que poderíamos supor, as Ciências Humanas também concebem/conceberam pensamentos e pensadores à la direita. Tem um filósofo famoooooso aí na USP bem conservador… )

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