Nostalgias do ano passado


Estes dias me peguei pensando em como conheci São Paulo. Cheguei numa sexta-feira do fim de fevereiro de mala e cuia para a aula que começaria segunda. Num misto de ansiedade e êxtase por estar na capital, desta vez sozinho e para ficar, cometi de cara a primeira gafe.

– Guarda, onde fica o Terminal Bandeira?

Me acenou para frente, bem onde, a não mais de 200 metros, havia um totem com o nome em letras garrafais.

Após ser informado de que não se vendiam passes (e que também não existiam fichas para isso) no guichê da CPTM, tomei o ônibus. Chegar na casa do Buzz, meu amigo, onde ficaria por umas semanas até me estabelecer, foi fácil.

Lembro até hoje, claramente, a cara de surpresa da Elizete, a empregada, quando me viu de malas a tiracolo logo após o elevador de serviço ter se aberto. Estava lavando roupas.

O sábado amanheceu meio chuvoso, meio nublado, de modo que o Buzz só fez um tour de carro comigo pela cidade no domingo. Foi o dia em que conheci São Paulo – os pontos turísticos pelo menos.

Começamos pela Avenida Europa, que segue até hoje para mim como Rua dos Carros. Eu não sabia para que lado olhar. Se ficasse vidrado nos Lamborghinis, fatalmente perderia as Ferraris e Mercedes do outro lado da rua. Seguimos até a Avenida Paulista, que se abriu larga e charmosa aos meus olhos. Não acreditava naquilo, a Paulista é coisa de aparecer na televisão, não de a gente ficar andando por ela. Meus olhos brilhavam.

Pegamos a Avenida 23 de Maio e contornamos o Parque do Ibirapuera pela Avenida República do Líbano:

– Nooooossa, que sítio bonito!, disse brincando para o Buzz.

– Cala a boca, é o Ibirapuera!, retrucou.

E pegamos a Avenida Ibirapuera, que deveria se chamar Amazônia, na minha opinião. Fui informado – e não vou me esquecer – de que esta avenida é um divisor de águas. À direita, todas as ruas do bairro são nomes de pássaros e à esquerda, de índios. De modo que me foi recomendado tomar um cuidado especial ao informações nessa região, sob pena de Jurupis se transformar em Jamaris e por conta disso andar mais do que deveria. Até hoje não voltei lá.

Já eram 15h, a macarronada do domingão tinha acabado de sair. Famintos, voltamos. Este foi o primeiro contato com a terra da garoa.

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

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