O(s) autor(es) de uma peça


Juliana Santos
Paulo Fávari

A figura do autor nem sempre é fácil de se identificar. A concepção tradicional que se tem de autor é que ele é o responsável por uma obra porque teve a ideia principal. Quando se trata de uma pintura ou uma escultura, identificar o autor geralmente é mais simples: o seu nome é o único ligado à obra. Já o livro traz um impasse a mais: a tradução. Apesar de a lei de direitos autorais brasileira considerá-la uma nova autoria, geralmente o nome do tradutor não tem a mesma evidência que a do autor estrangeiro.

Cinema e teatro são casos à parte. Sua realização envolve um número bem maior de pessoas, ou seja, diversas instâncias de criação e esse tipo de obra frequentemente surge a partir de outras preexistentes, como romances. Pela segunda vez em cartaz, “Gardênia”, realizada pelo “Núcleo de Teatro El Otro”, é um exemplo. A peça é livremente inspirada no livro “O Amor nos Tempo do Cólera”, de Gabriel García Márquez, escritor colombiano Prêmio Nobel de Literatura e, por essa razão, possibilita que se fale do autor por meio de ainda mais pontos de vista.

O fato de se tratar de uma adaptação é algo evidente nas estratégias de divulgação de Gardênia. Mesmo nas reduzidas sinopses de guias culturais isso é mencionado.

Sendo assim, por que então Gardênia e não “O amor nos tempos do cólera”? “Porque… Bom, porque não é ‘Amor dos tempos do cólera’”, responde Luís Mármora, que interpreta Florentino Ariza. O ator explica que o romance de García Márquez é bem mais abrangente do que a peça. Apesar de Gardênia conter o eixo central do romance, este possui muitos personagens e situações que a peça não aborda, por limitações de tempo e também devido ao número reduzido de atores em cena, apenas dois. “Então desde o começo a gente sabia que não seria o mesmo nome do livro, porque já tem isso: ‘inspirado no ‘Amor nos tempos do cólera’. Mas a gente sempre tenta deixar claro que não é uma adaptação, porque do mesmo jeito que existe uma surpresa positiva das pessoas ao verem a historia do García Márquez retratada, pode acontecer o contrário também, uma frustração devido a certos aspectos da história que não são tratados aqui”, completa Mármora.

A peça então ganhou o nome de uma flor. Segundo o ator, “não é à toa que o Florentino chama Florentino, a quantidade de flores do romance é imensa”. Dentre todas, a gardênia foi escolhida por apresentar características que remetiam ao tema da peça: “a gardênia tem uma particularidade, porque é uma flor com um cheiro muito forte, um cheiro que perdura. Então a gente achava que isso dialogava com os mais de 50 anos da história desse amor que perdura também. Esse cheiro que encanta, esse amor que encanta e sufoca ao mesmo tempo porque ele é tão obsessivo e intenso… E é um símbolo do romantismo também, a gardênia tem esse apelo”, diz ele.

CONTINUA…

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

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