As andanças do menino alagoano


Após atravessar a escadaria estreita, chega à sala onde alguns estudantes de jornalismo o estão esperando, no segundo andar, um senhor de feições nordestinas. Os cabelos brancos ainda conservam um toque amarelado daquilo que um dia foi um castanho escuro. Ele diz ter 78 anos – o estranhamento é quase consensual –, aparenta menos. No papel, no entanto, está às vésperas de completar seus 82 anos. Por conta de ingressar mais cedo na Escola de Aprendizes de Marinheiros, onde estudaria de graça, seu pai o registrou, já aos cerca de sete anos, com três anos a mais.

Politica e cortesmente, Audálio Dantas cumprimenta um a um, com um aperto de mãos e olhos nos olhos, todos os que estão na sala de reuniões da revista Segmentos da Comunicação, da qual é diretor executivo. Pela próxima hora e meia o simpático alagoano, sentado em uma das pontas da mesa, relembrará momentos de sua vida.

Começa pelo começo, de quando foi pela primeira vez a São Paulo, nos anos 30. Tinha então seis anos e os pais separados. É o único momento em que se mostra desconfortável. “Talvez não seja o caso de entrar no caso, mas tinha havido uma separação dos pais. Um ficou aqui e o outro foi pra lá. Essa divisão foi muito complicada”, relata enquanto suas pernas e mãos se põem frenéticas embaixo da mesa. Por delicadeza ou falta de tino, os aprendizes seguem o pedido em forma de conselho feito por Dantas e não tocam mais no assunto familiar.

Rápida e sutilmente, Dantas se recompõe. Passa então a relembrar a primeira viagem, de barco, feita da terra seca do interior de Alagoas para a terra da garoa. “Essa viagem pra mim foi um deslumbramento porque eu descobri que o mar não tinha fim”, conta.

Denominador comum entre tantos nordestinos, a água é objeto de fascínio também de Audálio Dantas. “Ainda hoje o rio é uma grande paixão, o rio em si. Qualquer rio pra mim é uma coisa bonita”. Em sua segunda vinda a São Paulo o trajeto englobou a subida do Rio São Francisco, de Gaiola – um tipo de barco de passageiros muito comum no norte, em que os passageiros dormem em redes no convés; hoje, estes barcos estão se tornando apenas turísticos.

E devo completar sobre o São Francisco que depois como repórter da Realidade, uma das minhas aspirações, digamos, era voltar ao São Francisco. E voltei ao São Francisco fazendo o curso inverso. Aí eu fiz de nascente – rigorosamente da nascente, botei os pés na nascente, na Serra da Canastra – e fui até o Penedo descendo o Rio São Francisco. Só interrompido em Paulo Afonso, onde não pode passar barco. Aí fiz um pedaço de carro e depois novamente fui até a foz do São Francisco.

Aí não foi mais de gaiola, que o gaiola já tinha desaparecido. Eu desci com barco alugado, era revista Realidade. Imagine, era tudo possível. Você alugar um barco para viajar um mês!

Essa viagem durou 43 dias da nascente à foz. E aí eu pude conhecer o rio melhor porque o gaiola ia nos portos preestabelecidos enquanto esse barco parava onde eu quisesse. Dormia da beira do rio, fazia comida, ia conhecer as cidades, conhecer o pessoal do campo, enfim. Foi uma descoberta maravilhosa

CONTINUA…

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s