(In)Comunicáveis


O dia começa como qualquer outro. Encastelados em seus biombos, cada qual olha fixo para a tela do computador – nem sempre desempenhando as atividades previstas no contrato. Quase nunca desconectados de redes sociais. Uma típica redação de agências de notícias de órgão público.

O silêncio quase sepulcral é cortado, vez ou outra, por bons dias e comentários fubetolísticos devidamente fundamentados na última rodada do campeonato. Ao longe, vê-se os tipos facilmente reconhecíveis. A mulher de meia idade distribuindo seu charme aos quatro cantos do andar. O boa pinta que desperta risos femininos. Os já conhecidos boleiros. E, de lá pra cá, as moças do café.

É quase hora do almoço, naquele momento em que o café da manhã já foi há muito e a barriga está na iminência de desatar a mostrar que existe. Olhos fixos nas telas dos computadores. Nos cantos das telas dos computadores. Eita hora que não chega, eita hora que não passa. Silêncio.

Mais esta entrevista, por telefone, e enfim o almoço. De súbito cai todo o sistema de comunicação da redação de comunicação social. De súbito cabeças se levantam, tal qual tartarugas que saem de seus cascos.

O papo agora rola solto na redação até então adormecida. Animados, todos se comunicam que é uma beleza. Põem em dia o fim de semana, planejam o que fazer caso pinte dispensa, assuntos mil.

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

Uma consideração sobre “(In)Comunicáveis”

  1. Oi, paulko.

    Sei bem como é isso na agencia. Quando entrei aí o que quebrou o clima foi um rato morto. Ninguem sabia onde ele tinha morrido – ora parecia que de um lado, ora de outro da sala. Bati um papo meio constrangido. Comecei a imaginar o féretro do rato. Foi a primeira piada.

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