Discussão do aborto reacende polêmica


Debate põe em xeque conceito do início da vida, dividindo ainda mais a religião e a ciência

Paulo Fávari para Notícias do Jardim São Remo, edição de Novembro de 2010

Durante a campanha eleitoral presidencial, um assunto tomou conta do noticiário: o aborto. Foi o momento em que líderes religiosos tomaram partidos e políticos se tornaram religiosos. No entanto, a discussão desse tema envolve, além da legislação, a questão da saúde pública. Apesar de ainda ser um tabu na sociedade brasileira, dados da Universidade de Brasília (UnB) mostram que uma em cada sete brasileiras de até 40 anos já praticou o aborto.
As são remanas também se posicionaram sobre o assunto. Antônia do Nascimento, na São Remo há seis meses, é clara: “Sou contra. É a mesma coisa que você pegar outra [criança] que já está ali, colocar na sua frente e matar”. Já Rudy Gomes, cabelereira, é um pouco mais flexível. Para ela, “Pensar antes é muito melhor do que fazer o aborto depois”. E emenda: “Primeiro tem que passar por aquilo para depois se arrepender?”.

Religião x Legislação

Anualmente, cerca de 300 mulheres atendidas pelo SUS morrem por causa de abortos mal sucedidos
Segundo a lei brasileira, só há dois casos em que o aborto é permitido: em gravidez decorrente de estupo ou quando a gravidez traz risco de morte à mãe.
O problema é que, de um lado, religiosos consideram a fecundação como o marco inicial da vida. Enquanto isso, a maioria dos cientistas atestam que só há vida a partir da formação do sistema nervoso do feto, a partir do quarto mês de gestação. Diante da polêmica, alguns juízes brasileiros vêm aceitando pedidos de aborto para casos em que há má formação do cérebro, os chamados fetos anencéfalos. Neles, o bebê já está morto no parto ou sobrevie por pouco tempo.
Quando questionada sobre isso, Antônia mantém sua posição: “Pode vir a lei que vier, mas eu não acho certo”. Por outro lado, Heloísa Buarque de Almeida, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, é favorável. “Se você despenaliza, o discurso fica menos moralista, tem mais chances de ter um atendimento melhor à mulher”, argumenta a feminista.

Saúde pública
Como o aborto é ilegal, para fazê-lo, a mulher, principalmente aquela sem recurso, recorre a métodos agressivos. As complicações geradas levam de hemorragias até à morte. Para os defensores da legalização, se a lei fosse flexibilizada, essas mulheres teriam acesso ao tratamento adequado. “A questão é: que acesso a gente vai dar para as pessoas à saúde? É um risco para a saúde esses abortos feitos desse jeito”, problematiza Heloísa Buarque.
Na opinião de Rudy, se a descriminalização for aprovada, o número de abortos aumentará muito. “Elas não vão pensar, não vão se cuidar”, diz. Antônia, porém, é mais incisiva: “Como você quer se cuidar e não quer cuidar daquela criança que você fez, que você matou?”.

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

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