Personagens da Feira: Antônio Rosa


Antônio Carlos Lima Rosa é formado em Geologia pela USP e trabalha em um projeto de testemunho de sondagens. Na Feira do Bandejão, Rosa é vende as flautas que faz e arregimenta compradores para gravar um CD. Com vocês, a entrevista:

Faz muito tempo que você vende os produtos aqui na USP?
Há cerca de quatro anos eu comecei. A feira já existia, aí eu comecei por convite do pessoal a vir expor aqui.

Tem algum outro motivo?
Olha, na época eu não tinha nem muita esperança de vender, não. Mas eu queria montar um grupo de flauta, e como o pessoal sempre, de forma esporádica, me procurava pra comprar, eu resolvi expor pra poder me aproximar das pessoas. Mostrar essa arte da natureza, essa coisa ligada ao meio ambiente, à música. Foi mais por isso.

Você conseguiu ter essa aproximação com o público?
Consegui, consegui. Tanto é que eu acabei por dar aula pra vinte e duas pessoas – montei uma oficina com vinte e dois alunos. A evolução foi legal, alguns desistiram no decorrer, mas uns dez ficaram. E desses dez, dois a gente está gravando um CD. Isso em torno do trabalho. E as pessoas que compram esse trabalho aqui [as flautas] são convidadas a participar desse CD, que não tem prazo pra ficar pronto mas é um tipo dum pout-pourri de amigos, das pessoas que se interam da minha arte. Eu convido. Se tocar bem, volta que você grava uma faixa no CD. Então, nesse sentido sim.

Você vende as flautas em mais algum outro lugar ou só aqui na USP mesmo?
No domingo eu vendo ali na feira os Omaguás, na Pedroso de Morais, em frente à FNAC. Todos os domingos eu costumo ir lá.

Tem diferença de preço entre aqui e lá?
Lá é cerca de 20%, 30% mais caro.

Qual a diferença entre o público da USP e o público de lá?
O estudante da USP em geral vem do bercinho de classe média e tudo mais, mas ainda assim ele tem aquele dinheiro que parece contado. Embora ele ganhe a grana dele, ele tem os gastos todos já pré-estabelecidos e você tem que ficar lidando com essa limitação do estudante. Desse modo, eu facilito o pagamento, às vezes se a pessoa não tem grana eu deixo até levar e pagar depois. A USP é como uma cidade do interior, de certo modo.

Há diferença de interesses entre o público da USP e o público dos outros lugares que você vende?
Não, não há. Geralmente quem se encanta por música reage da mesma forma sempre, com admiração. Muitos querem ao invés de aprender a tocar, aprender a fazer os instrumentos, querem saber como é que eu faço.

O seu público influi no que você vende ou ele é um alvo?
São as duas coisas. Eu exponho aqui o meu material e tenho uma tabela de escalas. Eu deixo as pessoas, muitas vezes com base na tabela, escolherem o instrumento que elas querem e eu faço por encomenda pra elas. Às vezes até flautas de outros países que eu nem conheço. Eles trazem uma fotografia, uma gravura…
Eu trabalhei na Faculdade de Música um tempo com o professor Paulo Sales e ele trazia pra mim justamente fotografias de índios, tribos já extintas, mas os portugueses tinham cuidado de registrar muito bem. Eu trabalhava reproduzindo esses instrumentos lá, então eu gosto disso. Eu gosto que as pessoas tragam as ideias delas. Isso acontece com muita frequência. Muita gente vem em busca de uma coisa que não está aqui e acabam levando o que está aqui, querendo o que está lá, entendeu?!

Você tem alguma história pra contar, que aconteceu nesse tempo todo que você vende flautas?
Devo ter, mas eu tenho que sondar aqui no disco rígido, deixa eu ver. É, a história mais recente é essa, que eu acho muito bacana até. É uma coisa que eu nem esperava, eu resolvi sozinho gravar um CD.
Eu tinha um amigo que tinha um estúdio, fui lá e falei com ele. Quando eu fui lá, pra mim foi um processo muito cansativo ficar gravando todas as flautas, todas as linhas. Aí por um instante eu pensei “poxa, por quê que eu não chamo as pessoas que compram os meus instrumentos?”, enviei um e-mail (mala direta).
No meio desse povo todo tinha “olha, eu tô tocando a nona do Telemann”, “eu tô tocando O Bem Obá”, “eu tô tocando não sei o quê…” e aos poucos as pessoas foram se aglutinando em torno dessa causa. Então pra mim é muito interessante poder entrar no estúdio e observar as pessoas lá discutindo, discorrendo sobre as limitações, as diferenças, aquilo que é bom ou ruim em torno de um material que eu faço com amor, com paixão, com afinco.
Isso aí pra mim não tem preço, cara. É um negócio que nem talvez a geologia um dia me dê, porque a gente vai lá e constrói uma ponte, um túnel e não tem depois a opinião de quem passa por lá. É sempre muito anônimo o trabalho do geólogo. Nesse sentido, aqui eu me sinto mais integrado culturalmente falando.
Parece que a flauta, por ser um instrumento muito antigo, faz as pessoas dos 8 aos 80 reagirem sempre da mesma forma. Um velhinho com 80 anos que passa aqui tem a mesma reação duma criança de 8 anos porque ele já teve 8 anos e viu quando tinha 8. A flauta é muito antiga.
Eu até imagino que ela está ligada ao hábito de comer do homem. Os macacos comendo nos pântanos cana… um inventou de soprar aquilo lá e surgiu aquela flauta de pan, que é a mais antiga mesmo, qualquer cultura que você vai ela é a mais… o registro dela é o mais antigo. Eu acho que ela está ligada mesmo a essa coisa: antes da gente falar, a gente teve contato com o som através das canas. Qualquer geólogo sabe que nos baixios, onde os primeiros hominídeos comiam ostra, também comiam a fonte de açúcar que é a cana. E essas canas são geometricamente ocas, então tem isso.
Mas essa experiência, que eu queria concluir, é isso: poder estar gravando com um monte de gente, gente até que comprou naquela hora e foi embora. Mas agora eu estou conhecendo as pessoas e vendo o aspecto cultural disso. Eu acho que essa cultura está aí querendo surgir em torno da música, em torno da coletividade, em torno de algo que é bom né, realmente. Eu acho que é isso, é uma coisa bacana que aconteceu. Deve ter tido muitas outras histórias.
Ah, teve outra legal também. O cara comprou e não sabia tocar, sempre reclamava comigo que não sabia. Aí resolveu viajar pelos Andes. Diz ele que como ele estava sem grana e nem nada, ele começou a soprar as flautas com a música brasileira, que eles não conheciam lá. Ele rodava o chapéu mesmo tocando mal tocado e grana aqui, grana ali ele viajou toda a América do Sul.
Criaram blog pra ele, pro artista brasileiro… E o cara voltou tocando pra caralho. Então eu falei “olha como é interessante”, não é? Se fosse um piano não teria como você por na bolsa e viajar com ele. Então essa portabilidade da flauta faz as pessoas usufruírem de experiências assim.
Eu em particular já cheguei em cidades anônimo e saí conhecendo até o prefeito porque era tocador de flauta. Parati, Ilha Grande, cidades pequenas assim. Então eu acho que existe… essa coisa da música é mesmo uma linguagem universal e a flauta, por ser muito próxima da voz, tem um livre acesso ao inconsciente. Ela não usa a roupagem das palavras, ela já invade lá no… Eu creio nisso.

Autor: Paulo Fávari

Paulo Fávari é mestrando em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP com o tema O trabalho experimental de Chico de Assis nos anos 1960: direção, dramaturgia e pedagogia, sob orientação do professor Sérgio de Carvalho. É também pesquisador do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS). Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

Uma consideração sobre “Personagens da Feira: Antônio Rosa”

  1. Interessante perceber que ações individuais podem transformar o cotidiano do coletivo.
    Muito legal o trabalho do Antônio,espero que continue a levar muita música às pessoas e sucesso com o CD.

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